O fenômeno “no show”

O chamado “no show” ­– quando o candidato aceita a vaga, mas não comparece nos primeiros dias de trabalho – tornou-se um dos sinais mais evidentes da deterioração da relação com o trabalho no Brasil pós-pandemia. O fenômeno é observado nacionalmente e em diversos setores de mercado, como o de refeições coletivas, em que a abundância de ofertas e processos seletivos cada vez mais facilitados pela tecnologia estimulam trocas e abandonos por diferenças mínimas de remuneração ou escala.

Para as empresas, o impacto se reflete em equipes desestruturadas, custos com admissão, benefícios e uniformes não devolvidos, além de prejuízos operacionais significativos. Para quem atua há mais de 30 anos no mercado de RH, o problema não distingue vagas temporárias ou efetivas, mas revela algo mais profundo – a perda de compromisso, de seriedade e de responsabilidade pessoal. Em um mercado em que a tecnologia facilitou o acesso às oportunidades, ela também enfraqueceu o vínculo humano que sustenta qualquer relação de trabalho.

Longe de ser um problema pontual, o “no show” expõe os limites de um modelo de recrutamento excessivamente automatizado e distante. A facilidade de se candidatar, aliada à realização integral de processos seletivos remotos, reduziu o senso de compromisso e banalizou a decisão de aceitar uma vaga. Cabe a nós, profissionais de RH, reagir com método e responsabilidade: entrevistas com câmeras abertas, comunicação clara, divulgação das vagas em fontes confiáveis e reforço da legitimidade do processo são medidas básicas, mas necessárias. Mais do que eficiência tecnológica, o momento exige recuperar relacionamentos mais humanizados.

A tecnologia deve facilitar, não afastar. Sem respeito mútuo e sem compromisso pessoal, o prejuízo recai principalmente nos próprios candidatos; justamente os que mais necessitam. Infelizmente uma minoria leviana acaba ferindo a imagem da maioria comprometida.

 

Por Flávio N. dos Santos – Diretor-executivo da WE CAN BR

 

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